Questão em destaque · Q1718777

TEXTO II Fiu-fiu Luis Fernando Veríssimo Existe coisa mais melancólica do que uma mesa de quatro pessoas, num restaurante, em que três estão dedilhando seus smartphones e uma está

Colégio Militar do Rio De Janeiro · CMRJ · 2017 · Aluno do Colégio Militar - Ensino Médio

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P1718777
ID: 1718777
Língua PortuguesaAssunto: Pressupostos e subentendidos · Interpretação e Compreensão de Textos
Banca: Colégio Militar do Rio De Janeiro
Ano: 2017
Nível: Médio

TEXTO II


Fiu-fiu

Luis Fernando Veríssimo


Existe coisa mais melancólica do que uma mesa de quatro pessoas, num restaurante, em que três estão dedilhando seus smartphones e uma está falando sozinha?


1Lançaram agora um celular à prova d’água, que você pode usar no chuveiro. Ou em qualquer outro lugar embaixo d’água. No mar, por exemplo.

– Bem, não me espere para o jantar...

– Onde você está?

5– Sabe a nossa pesca submarina?

– O que houve?

– Pensei que fosse uma garoupa e era um tubarão. E ele está vindo na minha direção.

– Você ainda está embaixo d’água?!

10– Estou.

– E o seu arpão?

– O tubarão engoliu!

– Ligue para a Guarda Costeira!

São cada vez mais raros os lugares em que você pode se ver livre de celulares,

15e agora nem as piscinas estão seguras.

Os celulares são práticos e se tornaram indispensáveis, eu sei, mas empobreceram a vida social. Existe coisa mais melancólica do que uma mesa de quatro pessoas, num restaurante, em que três estão dedilhando seus smartphones e uma está falando sozinha? Ou um casal em outra mesa, os 20dois mergulhados nos respectivos celulares sem nem se olharem, o que dirá se falarem – a não ser que estejam trocando mensagens silenciosas entre si, o que é ainda mais triste.

Os celulares podem ser perigosos de várias maneiras, mesmo que não derretam o cérebro, como se andou espalhando há algum tempo. Imagino uma velhinha que ganhou um celular dos netos sem 25que estes se dessem ao trabalho de explicar seu funcionamento para a vovó. Não contaram, por exemplo, que o celular dado assobia quando recebe uma mensagem. É um assovio humano, um nítido fiu-fiu avisando que alguém ligou, e que pode soar a qualquer hora do dia ou da noite. E imagino a vovó, que mora sozinha, dormindo e, de repente, acordando com o assovio. Um fiu-fiu no meio da noite! A vovó, se não morrer imediatamente do coração, pode ficar apavorada. Quem está 30lá? Um ladrão ou um fantasma assoviador? E o assovio tem algo de galante. A vovó pode muito bem sair da cama, sem saber se está acordada ou sonhando, e caminhar na direção do fiu-fiu sedutor, como se tivessem vindo buscá-la. Alguém pensou nas vovós solitárias quando inventou o assovio?

O fato é que não há mais refúgio. Nem castelos anti-smartphones com um fosso em volta. Eles 35agora podem atravessar o fosso.


Jornal O Globo, 03/08/2014. Disponível em <https://oglobo.globo.com/opiniao/fiu-fiu-13464128>. Último acesso em 30 de setembro de 2017.


Sobre os textos I e II, responda à questão 07.


Os textos I e II tratam os smartphones como os itens da contemporaneidade que têm levado as pessoas em geral a lidar (ou a não saberem lidar) com o hábito cotidiano.

Que fragmento do texto II pode servir de exemplo para a seguinte reflexão retirada do texto I: “Imagino um encontro de silêncios, onde todos os presentes estarão ausentes” (l.42)?

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